Quando o silêncio não é opção

QUANDO O SILÊNCIO NÃO É OPÇÃO
Concentração na Costa da Caparica motivada por indiferença perante agressão homofóbica

Filipa Lacerda (texto) e Gustavo Lopes Pereira (fotos)

Uma semana depois da agressão homofóbica ao casal de namoradas Sara Casinha e Débora Pinheiro por parte de um homem acompanhado pelo seu filho menor, a Praça da Liberdade na Costa Caparica assistiu dia 24 de fevereiro a uma ação de solidariedade para com as vítimas, organizada de forma independente, sem grande pré-aviso, nas redes sociais. Sem faixas nem gritos de protesto, mas com algumas pequenas bandeiras arco-íris na mão, cerca de vinte pessoas terão passado entre as 17h00 e as 19h00 para falar sobre o sucedido no local, trocar ideias e lutar por algo muito concreto. O direito e o dever de nos posicionarmos contra a indiferença.

Entre as pessoas sentadas nas esplanadas e nos bancos domingueiros da Praça ou entre quem por ela passava, alguns observavam curiosos. “A não intervenção é uma forma indireta de participação”, afirma Ricardo Duarte, organizador da concentração através de um evento no Facebook, para quem “a agressão (sofrida por Sara e Débora) foi em praça pública e ninguém interveio”. Ou seja, “duas pessoas ficaram aflitas, foram alvo de violência verbal, penso que também física, e as pessoas ficaram simplesmente a olhar”, prossegue. Apesar de – segundo Débora Pinheiro em declarações ao Diário de Notícias – o polícia com quem falou do Posto Territorial da Costa da Caparica ter dado a entender que várias pessoas ligaram procurando relatar o que se passava, entre as muitas pessoas que acorreram ao local da agressão não houve quem se manifestasse durante ou depois do sucedido e, ao que tudo indica, faltam testemunhas.

“Pensando num contexto alargado, e no momento pelo qual estamos a passar agora, achei que o silêncio não é uma opção, (…) achei que era meu dever organizar alguma coisa para dizer que não nos vamos calar, que não vamos aceitar, que vamos reivindicar o nosso espaço. (…) Seja onde for, uma intervenção é necessária para travar esta onda, não só a nível LGBTI* e gayfóbico, mas também machista, racista, islamofóbico, antissemita”, concretiza este professor e amante de animais que ainda desconhecia o movimento VOE (Veganismo de Oposição à Exploração Animal, Humana e Ambiental), que aderiu à iniciativa. Segundo o criador do grupo, João Miguel, nas décadas de 80 e 90 havia um movimento de vegans antifascistas, anti-homofóbicos, antirracistas, cujo espírito está a tentar recuperar. A filosofia do veganismo “é a libertação tanto animal como humana” e, como tal, “não faz sentido só estar a lutar por um lado descurando a parte humana”, afirma este ativista, enquanto recorda com uma colega a participação do grupo em diferentes manifestações.

“E é assim que um dia somos 15, e no outro 15.000”

“É importante sentir”, testemunha Nelson Farrim, autor do portal pois.pt . A capacidade de sentir empatia quando vemos alguém sofrer é, na sua opinião, fundamental para nos mantermos humanos.  “As pessoas deviam intervir, procurar parar a agressão… e pôr algum juízo na cabeça do agressor”, desabafa a jovem Sara quanto ao caso de Sara e Débora, acompanhada pela mãe. “Quando vi no Facebook que ia haver esta manifestação disse-lhe que tínhamos que vir”, relata Patrícia. Depois do trabalho em Lisboa, foi apanhar a filha ao Barreiro para enfim rumar à Costa, reconhecendo a importância de se manifestar independentemente dos números. “Não importa se hoje somos quinze (…) aos poucos, pode ser que se vá mudando um bocadinho a consciência das pessoas”, desafia. “E é assim que um dia somos 15 e no outro somos 15.000”, sentencia mesmo Sara.

Houve quem associasse as bandeiras trazidas à paz e quem se interrogasse acerca do porquê da concentração. Junto ao quiosque dos jornais, no canto da praça que dá para a Rua dos Pescadores, onde ocorreu a agressão, Alda Maria ficou na dúvida: “Estava ali sentada e o meu marido disse que estava a reconhecer aquelas bandeiras, do movimento gay… depois levantei-me e vi que estava ali aquela concentração, mas também não se manifestaram muito”. Moradora da Costa da Caparica “há muitos anos”, ficou a saber do caso da agressão pelo que “leu no jornal”, mas, até à data, não conseguiu perceber bem o que se passou.

Segundo o Diário de Notícias de 19 de fevereiro, foi registada uma queixa-crime por injúrias, ameaças e ofensas à integridade física de Sara Casinha e Débora Pinheiro, com identificação do suspeito, devendo agora a mesma seguir os trâmites normais no Tribunal Judicial de Almada.  As queixosas consideraram ter sido vítimas de um crime de ódio, mas a motivação dos crimes não foi tida em consideração pela GNR, cabendo ao Ministério Público fazer essa qualificação.

*Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero e Intersexo

Written by Âmago

Desenvolvimento. Media. Cultura.

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