Perdidos e achados na Mouraria

PERDIDOS E ACHADOS NA MOURARIA
Descobrindo Lisboa numa rota intercultural urbana

Filipa Lacerda (texto) e Gustavo Lopes Pereira (fotos)

Curiosos reúnem-se num sábado de manhã para mais uma rota intercultural urbana do projeto europeu Migrantour Lisboa, promovido pela Associação Renovar a Mouraria em Portugal. Num dos bairros mais multiculturais de Lisboa, vamos descobrir em conversa com uma guia brasileira e uma guia de origem cabo-verdiana um pouco mais sobre nós. Nós, que parecíamos tão distantes antes de percorrermos a rota “Há mundos na Mouraria”. Um caminho a fazer estrada fora, onde é possível estarmos todos incluídos.

São 10h30 e José desenha a Igreja de São Domingos, a grande sobrevivente do Largo com o seu nome. O Largo que em 1506 testemunhou por três dias a morte de judeus, muitos já assimilados, que, associados à carência e doença que assolavam Portugal, foram entregues ao preconceito e ao fogo. O mesmo Largo onde hoje, num ambiente cada vez mais multicultural, se recorda este evento e se lê “tolerância” num muro sem fronteiras. Uma página da História da cidade em movimento perpétuo, entre marés seculares de segregação e integração. Lisboa, a menina e moça ou já mulher, que tem em si as culturas que há séculos a habitam. E não são poucas.

“Amarra bem a tua capulana”

Chegámos aos poucos. “Não me inscrevi… posso participar?”, indaga Isabel. Pouco a pouco, apresentamo-nos. “Sou francês, mas moro em Portugal há três anos”, partilha Jim. “Gosto das diversas formas de vida, de cultura, de pessoas que encontro em Lisboa”, acrescenta Anny, também francesa. O grupo que se forma é oriundo de Portugal – do Algarve a Trás-os Montes – do Brasil, de Cabo Verde e de França, mas, se olharmos atentamente, percebemos que é dali mesmo. Um sítio onde todos cabemos e encontramos elementos que integram a nossa vivência. Seja a Guiné-Bissau dos frutos que Cadi nos dá a provar num dos bancos de pedra do Largo – como a cabaceira da qual se faz um sumo delicioso – seja a simbologia de uma capulana (tecido de pano) trazida de uma viagem a Moçambique ou numa vitrine, que adoramos vestir ou pôr à mesa numa refeição em família. E agora, encontrados esses elementos, a aventura de percebê-los: “No Brasil estuda-se a História europeia mas pouco aquela africana… aqui estou a ter oportunidade de aprofundar mais as minhas origens”, partilha Hérica Nogueira, uma das guias da nossa rota “Há Mundos na Mouraria” do Migrantour Lisboa. Mas é preciso “amarrar bem a capulana”, como se diz no Brasil perante algo desafiante.

Hérica, de Brasília – capital brasileira feita por migrantes de todo o Brasil –, esclarece que só na Mouraria são hoje mais de cinquenta nacionalidades a conviver, de acordo com os censos de 2011.  É nesta multiplicidade que José Clewton se demora no retrato a Cadi, proveniente de Bissau, que nos garante estar ali “todos os dias” no Largo, desde que chegou a Portugal para fazer tratamento. Vemo-la agora no papel, lado a lado com o património que a rodeia e com o qual interage, enquanto prosseguimos pela Rua do Arco da Graça. “Vivi muito tempo na Penha de França, ao pé da Graça, mas depois fui para Sintra… Conheço a rua debaixo, mas para esta aqui nunca vim”, partilha Maria Amélia, fascinada pela variedade de restaurantes e lojas que vai espreitando. Cátia Lopes – colaboradora do IMVF e
da Associação Renovar a Mouraria, mas hoje “passadora de cultura” – recorda-nos, porém, que a Mouraria nem sempre foi ali. Quase a chegar ao Hospital de São José, junto à Torre da Péla, Cátia aponta para a separação entre a Mouraria e Lisboa, feita em 1147, com a tomada da cidade por Dom Afonso Henriques e o acordo feito por este com os Mouros.

Um lugar onde ainda se estende roupa

Das hortas dos mouros que se avistavam ao longo da encosta vão convergindo para a conversa as margens de um rio que outrora corria no lugar da Avenida Almirante Reis. Mas, com o tempo, o centro expande-se, as pessoas aproximam-se, as ruas transformam-se. No antigo metro do Socorro, hoje Martim Moniz, a artista angolana Gracinda Candeias – apoiando-se no azulejo introduzido pelos árabes na Península Ibérica – pôs em comunicação ao longo de quatro anos, entre formas circulares e traços verticais, elementos árabes, portugueses e angolanos. A geometria de uma cultura de diálogo em permanente mutação. Levado para o Brasil pelos portugueses, “o hábito de usar o azulejo na parte de fora das casas é entretanto trazido do Brasil para Portugal, por volta do século XVIII”, ressalta Hérica entre as suas duas terras.

Ao entrarmos pelo metro para o Centro Comercial da Mouraria, vamos imergindo nesse universo cruzado, de todos os cantos do mundo que, até hoje, nos influencia e influenciamos. À frente de uma das lojas com mais diversidade de produtos alimentares, entre legumes de todos os géneros, partilha-se receitas. Muitos elogiam a batata doce que preparam “no forno” ou “no micro-ondas”, “com sal” ou “especiarias por cima”, e que se come bem “sozinha”.  Fala-se da frescura dos quiabos e da convidativa cachupa da mãe de Cátia, entre lendas que nos dão a conhecer a origem de alimentos como a mandioca, eleita pela ONU como o alimento do século XXI. “Estive muito bem no Brasil com os meus filhos, (…) no interior do país comi coisas que nem sabia o que eram…”, recorda José Lemos sorrindo ao longo das escadas do metro que dão para a Rua do Benformoso.

“Este cheiro a especiarias é inconfundível”, exclama entretanto José ao entrar na rua. “Isto agora está muito bem arranjado… quando era pequeno esta zona estava completamente degradada”, vai descrevendo. “Primeiro vimos chegar aqui imigrantes dos PALOP, do Brasil, e depois orientais, como chineses, indianos, nepaleses…”, conta, enquanto Cátia chama a atenção para a zona que é hoje conhecida como “Banglatown”. Uma realidade integrada no bairro da Mouraria no qual a fixação de organismos públicos e organizações sociais também “contribuíram para a sua revitalização”. Um lugar onde “ainda se estende roupa”, complementa Hérica, apontando para o mar de cor.

Os caminhos do fado

Evocando a procissão de Nossa Senhora da Saúde, vivida por todo o bairro, ou espreitando por ruas de luz e sombra onde Halal (o bem) é seguido e a liberdade religiosa tem morada, chegamos ao início da rua do Capelão. Aqui, Hérica mostra-nos pelas paredes das casas as fotografias da britânica Camila Watson que, “durante uma viagem a Portugal, decide ficar” e mergulha no bairro. A importância de inscrever o tempo no espaço e o espaço no tempo para “contar a história” das suas gentes. Lembrar quem ali nasceu, veio para ficar ou partiu ainda que, tal como a memória, as imagens fixadas se transformam com os dias.

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Enquanto caminhamos, “a prática vai trazendo a sensibilidade para observar as coisas”, partilha José Clewton, desenhando um pouco mais. Vemos, aos poucos, alternarem-se bonitos prédios reestruturados, mas sem a vida que antes nos chamava, de roupa pendurada à janela. É aí que se alojam hoje muitos turistas que, apesar da cultura que trazem e levam, vão moldando o bairro como lugar de passagem e de consumo rápido. Raquel questiona esta ocupação num bairro que “levou tanto tempo e tanto trabalho a construir de forma equilibrada”.  “Já há limites em termos de habitação para o turismo”, mas também “um grande desafio pela frente”, responde Cátia, relembrando a luta dos moradores na Praça do Martim Moniz por espaços de lazer que não sirvam apenas fins comerciais.

Mais adiante, ficamos a saber que o fado  –  de múltiplas influências nas suas composições e sonoridade – nasce e migra para zonas nobres da cidade pelas mãos de um grande aficionado das touradas, o 1º Conde de Vimioso, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro. Quase porta a porta, moradas de grandes fadistas e, sem um retrato seu, Severa – a mãe do fado – é pintada e deixada à nossa imaginação. À frente, no Largo da Severa, Cátia cumprimenta um amigo. Apresenta-nos o projeto Enciclopédia dos Migrantes no qual, ajudando a recolher 50 cartas de moradores do bairro sobre a experiência no seu país de residência, enviadas para os seus familiares e amigos, Cátia partilhou as suas origens cabo-verdianas e “entrou mais ainda no bairro”.

Maria Amélia veio com duas amigas, alfacinhas como ela, a residirem também hoje fora de Lisboa. “É um mundo global que está integrado neste local”, observa Maria Carolina, com experiências de trabalho (remunerado e voluntário) em África. “Este tour chamou-me a atenção para uma nova forma de ver. Às vezes a gente olha e não vê”, acrescenta Maria Aduzinda, num largo onde diz ir descobrindo sempre coisas novas. “Era o que eu estava dizendo… quando desenho, entro numa outra lógica que é a do tempo lento, observando”, diz José Clewton. “Não estava com a intenção de desenhar estes cenários do tour, mas foi surgindo”, detalha este arquiteto enquanto partilha com as três amigas a sua Lisboa, desenhada nos seus tempos de pós-graduação na cidade.

E, entretanto, não terminamos o tour “Há Mundos na Mouraria”. Continuamos como começámos. Como residentes, migrantes e turistas, em algum momento da nossa história, aqui como em tantos outros lugares. Numa “língua viajante” que vem dialogando com outras línguas. Que as traduz. Que se espera de entendimento e mediadora de conflitos. Que chegou a diferentes povos e que, desde a sua origem românica, não pára de receber influências de outras culturas e de adquirir novos significados e novas formas de se contar. A partir de nós. A começar com a migração.

As rotas “Há mundos na Mouraria” e “Da Mouraria para o Mundo” do Migrantour Lisboa fazem parte do projeto “MygranTour: uma rede europeia do migrante impulsionando rotas interculturais para compreender a diversidade cultural’, cofinanciado pela União Europeia, e marcam presença em 16 cidades. Associada também à iniciativa Dicionário do Desenvolvimento, promovida pelo IMVF – Instituto Marquês de Valle Flôr, pela Associação Renovar a Mouraria e pela Fundação Cidade de Lisboa, faz-nos olhar para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2030, como o objetivo 10 (reduzir as desigualdades).

O Migrantour, a partir do que nos é comum, fala da “importância do encontro”, testemunha Cátia Lopes, colaboradora do IMVF e da Associação Renovar a Mouraria bem como guia no projeto. Um caminho em que “o outro” passa, pouco a pouco, a integrar o “nós”. Um “nós inclusivo” onde a diferença, geralmente subtraída à igualdade, entra a somar enquanto diversidade. O caráter transnacional do Migrantour permite-nos ver a equação a 360 graus. “Também somos o outro de alguém”, sublinha Cátia. No Migrantour Paris, por exemplo, tem-se em conta a presença e o contributo das comunidades imigrantes portuguesas que, nos anos cinquenta, aí chegaram e se dedicaram, em particular, ao trabalho na construção civil.

Written by Âmago

Desenvolvimento. Media. Cultura.

2 comentários

  1. um tour muito interessante vivenciando uma multiculturalidade cheia de cor, ordem e paz numa manha solarenga de inverno nesta cidade de Lisboa cada vez mais bonita. Amei …

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