“Os fotógrafos, que começaram como artistas da sensibilidade urbana, rapidamente compreenderam que a natureza era tão exótica como a cidade e os camponeses tão pitorescos como os habitantes dos bairros de lata.”

Susan Sontag, 2015 [1973], 61.

Uma fotografia diz tudo.

Ou talvez não. Também não interessa. A fotografia é um acto de fé. E isso só a torna mais interessante.

Actualmente, o equívoco mais comum quando se fala de fotografia é considerar que a fotografia é só uma. Simples. Lisa. Plana. A realidade, no entanto, é bem diversa. A fotografia é um fenómeno complexo. Talvez agora mais do que nunca. E talvez o facto de agora estar em todo o lado contribua para manter secreta a sua antiga e perene natureza. O que está à vista de todos permanece escondido. A verdade é que a fotografia tem múltiplos usos e assume muitas formas. Querer pensar sobre fotografia sem ter em conta essa heterogeneidade é tomar por objecto apenas uma parte daquilo que a fotografia é.

Outra questão é a do valor da fotografia.

Li num sítio qualquer que uma fotografia vale aquilo que alguém está disposto a pagar por ela. De facto, se a fotografia é complexa, circulando em diferentes campos da vida social – desde a família ao mercado, em todos os seus sub-sistemas (do sector privado ao sector não lucrativo, da arte à pornografia) – então é também plausível que o seu valor seja diferente consoante a função que desempenha no campo em questão: a fotografia como memória afectiva, o fotografia como notícia, a fotografia publicitária para venda de produtos ou serviços, a fotografia enquanto artifício gerador do capital simbólico de organizações. A fotografia é um bem cultural cujo valor não existe fora dos sistemas sociais onde a imagem fotográfica circula. Vale o valor que tem para os actores sociais que se relacionam em determinado campo da vida da sociedade.

A par de tudo isso, toda a fotografia tem um lado mágico. É o efeito de olhar para trás. Descobrem-se coisas antes não visíveis. É o resultado da passagem do tempo e do distanciamento criado. Como refere Susan Sontag, a fotografia é por natureza uma forma de expressão surrealista. O surrealismo imposto pelo tempo e pela distância social entre as realidades frequentemente tratadas pela fotografia e os seus circuitos de consumo. No fim, todas as fotografias estão destinadas a ser arte (Sontag, 2015 [1973]).

Sontag, 2015 [1973] Ensaios sobre Fotografia. Queztal Editores: Lisboa.

Texto e fotografia por Guto

 

Written by amagomedia

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