Numa cena rural bem perto do centro empresarial lisboeta, entre a linha do comboio Sintra-Azambuja, edifícios de escritório e zonas habitacionais, alguns homens juntam-se sob o pretexto daquilo que se poderia nomear por agricultura de recreação.

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“Serve para passar o tempo” ou “para distrair” dizem da sua prática. Não estão presentes todos os dias, apesar de respeitarem alguma frequência, uns mais do que outros. Ao fim-de-semana ou em momentos mais festivos juntam-se familiares: mulheres e filhos. Seja para dar uma ajuda na exploração familiar ou para apenas para estar, geralmente em torno de um almoço bem guarnecido, onde não faltam os produtos criados naquela terra, o vinho e o grogue, denunciado as origens dos agricultores-comensais.

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A precariedade dos espaços de apoio às explorações, de carácter improvisado, contrasta com a atenção colocada na refeição. A alimentação é importante. Quando presentes, os homens juntam-se à hora de almoço e falam dos assuntos que se fala quando se está em frente a um prato de peixe ou carne acabada de sair da brasa. Coisas do quotidiano: futebol, política, o tempo.

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Apenas um dos presentes não tem origens cabo-verdianas. É também o único que não possui um espaço de horta próprio, mas que, residindo no local, é frequentemente contratado pelo grupo para apoiar as diferentes explorações individuais em momentos de maior trabalho. Batata, cebola, tomate, diferentes couves e piri-piri são alguns dos produtos cultivados por estes homens. Apesar da dimensão recreativa e social da experiência, a actividade hortícola contribui também para a alimentação das suas famílias.

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Na maior parte dos casos, estes homens não habitam nas proximidades, tendo ali chegado por intermédio de conhecidos, por vezes envolvidos noutras hortas urbanas de Lisboa. São sobretudo reformados de profissões várias que encontram na agricultura uma maneira de permanecerem ligados à terra, à semelhança de seus antepassados em Cabo Verde. Não sabem precisar há quantos anos ali estão – varia de acordo com os diferentes casos – nem sabem quanto tempo vão ficar. “Isto é apenas temporário” – dizem – “estamos aqui enquanto nos deixarem ficar”, alertando para o facto de aquele ser um espaço que a qualquer momento pode ser designado pelas autoridade camarárias para outro fim.

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Por vezes, aparecem pessoas em busca de um sítio onde plantar, mas está tudo preenchido, além de que a água é escassa, existindo apenas dois poços para alimentar as diferentes explorações. Em momentos de falta de água tudo é mais difícil e o trabalho é menor. Noutros dias, cruzam-se com famílias romenas que ali perto preparam refeições, usando fogueiras. São pessoas simpáticas, referem. Frequentemente, olham para o céu, observando os aviões que chegam ou partem do aeroporto de Lisboa, que ali passam baixo. Será que sonham um dia partir também eles num avião, para outro campo qualquer?

Texto e fotos por Guto.

Written by amagomedia

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